12 junho 2010

O Mundial de Futebol e as missões militares no exterior

"A Selecção Nacional de futebol com 24 jogadores, começa a 5 de Junho uma missão no exterior: vai participar no Campeonato Mundial da modalidade que se realiza na República da África do Sul (RAS); e tem um objectivo que é a de defrontar e, se possível, vencer as equipas que lhe calharem em sorte, até ao derradeiro jogo final. Em qualquer dos casos jogar bem, esforçar-se e cumprir os deveres associados.

As Forças Armadas Portuguesas e a GNR têm, neste momento, várias unidades suas destacadas em diferentes teatros de operações (Mapa de Missões). A sua missão é o de participarem em missões humanitárias, de paz e de imposição de paz, no âmbito das organizações ou alianças de que Portugal faz parte. Neste momento o Afeganistão configura um verdadeiro teatro de guerra.

Os jogadores da seleção só por estarem “deslocados” na Covilhã, num meio circo meio estágio, usufruem a modesta quantia de 800 euros/dia, só de ajudas de custo.

Quando chega a hora da partida, há foguetes, bandas, bandeiras, comezainas, declarações furiosas de optimismo e fezadas de vitória. Alguns até aprendem a cantar o hino que de outro modo não saberiam e inventam usos inusitados para a bandeira nacional, que o olhar complacente e às vezes embevecido, dos agentes de autoridade consente.

Vejamos agora o que se passa com as missões militares no exterior. Estas missões são definidas ao mais alto nível do Estado e servem, supostamente, para defender os interesses globais desse mesmo estado e do país. Missões que envolvem riscos sérios que, não poucas vezes, causam ferimentos graves e a própria morte, nos intervenientes.

Sobre o que se passa, pouca gente fala. Os órgãos de comunicação social (OCS), habituados a toda a sorte de cusquices, sentem uma verdadeira azia quando se trata de reportar o que se passa. Uma ou outra notícia fugaz, de um treino; uma reportagem de um enviado especial quando o rei faz anos e umas imagens de choros e abraços nas partidas e chegadas.

O comportamento dos responsáveis do Estado também não é melhor: quando não primam pela ausência, aparecem embaraçados, distantes, conformados com uma maçada. Falta-lhes convicção e autenticidade. Ou é isso que reflectem. Dizem umas palavras de circunstância e, logo a seguir, vão por detrás e zás, mais umas facadas no orçamento, estrutura, meios, etc., das FAs.

Quando morre um militar tudo se altera: passa-se do 8 para o 80. Os OCS despejam pipas de notícias, massacrando a família e amigos da vítima; descobrindo imensas coisas que criticar, etc. Os representantes do Estado estão presentes ou fazem-se representar num esforço desproporcionado ao evento, mas sempre rezando para que o ocorrido seja esquecido rapidamente. O povo em geral, anestesiado por catadupas de informação e desinformação, encolhe os ombros e sussurra quanto muito um “coitado teve azar”. E alguns rematam, dizendo “foi para lá porque quis…”.

Agora meditem no tratamento que goza a F.P.F. comparado com o Exército, a Força Aérea ou a Armada!

Acreditem que gostaria que a nossa selecção de futebol ganhasse a taça. Já ficaria contente se tivesse uma boa prestação. Agora aquilo que de facto me satisfaria, era que na nossa terra houvesse o sentido das proporções, da justiça relativa e que não se andasse a matar o bom senso diariamente. Porque, até ver, ainda ninguém morreu de ridículo."

De João Brandão Ferreira, in Jornal de Defesa e Relações Internacionais

2 comentários:

alien disse...

Dêem-lhes fado, futebol e fátima que eles vivem contentes...
Já dizia o outro e ainda o criticam hoje...

Amostrinha disse...

Acrescentando ao comentário anterior, o povo é tão sereno que nem se manifesta perante a perda constante que tem tido na sua qualidade de vida... Tiram-nos tudo mas atiram-nos para os olhos as areias do mundial, depois lançam a polémica das scuts para ver se o Zé Povinho se mantém distraído e não se apercebe que os impostos continuam a aumentar e os salários a diminuir...
Quanto às preocupações do teu artigo, até me lembro de termos falado sobre isto pessoalmente. Claro que me preocupa, mas confesso, estou mais concentrada em perceber o que vai acontecer ao comum cidadão do que a grupos pequeninos de pessoas... (a não ser que se trate de futebolistas, esses deviam ser alvos do Carmageddon!!!)